Uma carta dentro de um livro

Achei essa carta dentro de um velho livro.

Foi escrita por uma certa Ana e destinada à irmã dela, Catarina, que deveria ser mais velha e morar em outro lugar.

Na carta, Ana conta o trivial: família, doenças e notas da escola. Mas de alguma forma a saudade que a menina sentia pela irmã, naquele outono de 1970, ainda permanece expressa na carta até hoje.

Naturalmente. Cartas são literatura bruta, revelam os sentimentos de todo tipo de gente: humildes, intelectuais, famosos, anônimos, quem quer que seja.

Deve ser a mais democrática das artes. Nas cartas o que vale não é o estilo, nem a precisão gramatical. O importante é o registro do que há de essencial no espírito de quem escreve, quer ele queira ou não. Diferencial que não foi herdado pelo e-mail, nem vai ser pelas futuramente hegemônicas mensagens de vídeo.

Afinal de contas, a tecnologia do tempo real não deixa espaço para a reflexão ou para o sentimento – matérias-primas da carta. Hoje o que importa é informação e ponto final. Uma pena.

Bem que a Unesco podia decretar que toda as cartas escritas antes da Internet se tornassem patrimônio da humanidade – assim como fez com os navios naufragados, que repousam no fundo dos oceanos.

A carta é a história contada em segredo, na intimidade das pessoas. Muitas vezes, a única forma de seguir os vestígios de povos oprimidos, cujas vozes foram censuradas.

Depois de compartilhar o sentimento das duas irmãs, comecei a desejar que Ana e Catarina ainda estivessem vivas e próximas.

Me preocupei com o destino delas pelo fato de o livro ter chegado à minha mão como resquício de um espólio.

Besteira…

Se pudesse, devolveria a elas esse pequeno pedaço de passado.

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