OELA - primeira lutheria com linha de produção certificada

O telefone tocou. Era Tasso Azevedo querendo saber se Rubens Gomes toparia usar na sua lutheria madeira a partir de manejo florestal sustentável.

Rubão, que tinha recém fundado sua Oficina Escola de Lutheria da Amazônia, jamais ouvira falar nisso. Sua matéria-prima era madeira caída – recolhida no chão da floresta.

Mas gostou da ideia. Apesar de estar na cara que, do outro lado da linha, o menino não passava de um mero graduando. Devia estar matando aula.

E Rubão estava certo: em 1998, Tasso usava calça curta pra frequentar as aulas de Engenharia Florestal na Esalq/USP.

Marcaram um encontro. Rubão quase recusou quando Tasso sugeriu uma churrascaria a quilo na saída de Manaus. Os argumentos de Tasso, como sempre, foram indiscutíveis: comida rápida, barata e estava no meio do caminho.

Apesar do joelho de vaca que mastigavam, eles se entenderam: a OELA tornou-se a primeira lutheria do planeta a optar por madeira certificada.

Mas pra Tasso era pouco. Não bastava o critério ambiental. Pra servir de exemplo para as idéias futurísticas que acalentava, o resultado tinha de ser refinado.

Quem podia carimbar o padrão de qualidade? Ninguém menos que Turíbio Santos, já então reconhecido como maior em sua arte.

O diretor do Instituto Villa-Lobos, no Rio de Janeiro, experimento o violão que Tasso trouxe de Manaus. Dedilhou, beliscou, percutiu. No final, sugeriu certas calibragens.

Depois de algumas idas e vindas, numa bela manha de sol, no jardim do Instituto Villa-Lobos, Turíbio recebeu o protótipo definitivo. (Essa foto existe, mas Tasso não tem tempo de achar pra gente.)

Turíbio tocou. Ouviu. Sentiu. Subiu e desceu no braço do violão. Repetiu a sequência. Tocou tudo de novo. Parecia buscar algum som que se escondia naquelas madeiras caboclas.

Insistiu.

Tasso achou aquilo tudo muito estranho. Começou a demorar de mais! Para falar a verdade, a música nunca o mobilizou. Só na faculdade aprendeu a suportar sertanejo universitário. (Uma vez me deu de presente um CD do Benito de Paula.)

De repente, mestre Turíbio suspendeu o dedilhado. Voltou-se pra Tasso e sentenciou: “Manda o Gomes fazer todos idênticos a esse aqui”.

O tempo passou. Mestre e aluno jamais se reencontraram.

Mas a OELA prosperou. Hoje, forma em média quinze alunos por ano na arte da luhteria. O próximo passo vai ser oferecer mestrado num projeto com o INPA – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia.

Ouvi essa historia ontem no Clube do Choro em Brasília, quando levei Rubens Gomes pra ouvir Turíbio Santos.

No palco, o mestre comentou o reencontro. ”É bom relembrar os caminhos que percorri.”

Quando deixei Rubens na sede do GTA, ele me confessou: “Desde que fundei a escola, venho a Brasília quase semanalmente. Nunca consegui ir ao Clube do Choro. Hoje, foi a primeira vez.”

Reencontrando o mestre

Turibio Santos e Rubens Gomes

OELA – http://www.oela.org.br/

Clube do Choro – http://www.clubedochoro.com.br/

Anúncios