cordilheira na mesa

Terminei Cordilheira de Daniel Galera. Autor campeão de tiragem de livros de ficção.

Percebi o tão badalado talento do cara. Ele sabe montar um personagem. Conhece os traquejos para uma narrativa concisa.

Há tempos queria ler alguma coisa dele. Desde o dia que uma querida amiga me confessou que a narrativa de Galera lhe tirava o fôlego.

Encontrei este exemplar aí da foto, por R$ 5,00, numa barraquinha que vende livros usados na saída do metrô de Botafogo.

Pelo que vi em Cordilheira, Galera é um ótimo autor do que se chama hoje de romancista de formação ou autoficção – que seria fazer ficção da própria vida.

O problema é justamente esse. Essa fórmula já encheu. O próprio conceito de romance de formação está desgastado. No passado, foi muito usado para discutir outros temas. E parece agora estar sendo usado para rebatizar velhas teorias, cujo debate também já acabou há décadas.

Explico. Quando leio alguma coisa referente a tal da autoficção,  parece que estou voltando 60 anos para discutir o nouveau roman, na França.

Guardo até hoje fotocópias que circulavam na faculdade dos textos que Robbe-Grillet publicou no L’express, nos anos 60, teorizando sobre a então nova moda de olhar para o próprio umbigo para explicar o mundo.

Nesses artigos, posteriormente reunidos em livro, mas que, acho, nunca foram publicados no Brasil, Grillet não parece chegar a um acordo consigo mesmo. Ele próprio um nouveau romancista.

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Capa de uma edição francesa de “Por um Novo Romance”

Admito que nunca me acertei Marguerite Youcenar. Tampouco gostei de Les Gommes, do próprio Grillet. Acho que eles faziam um arremedo das obras dos mestres modernos, como Flauber ou Joyce. Seus livros repetiam esquemas que eles julgavam encontrar na leitura desses clássicos da literatura moderna.

O que não era verdade. Quando lemos esses mestres, nunca identificamos esses esquemas. O que encontramos, é um mergulho profundo nos cânones literários – semente de toda literatura.

Já os tais nouveaus romancistas pareciam buscar nas próprias experiências, por mais pobre e solitárias que fossem, o mundinho de possibilidades viciadas para a construção de seus personagens.

Hanna Arendt discutiu isso quando escreveu sobre cultura de massa, que ela considerava conseqüência da realidade opressora daqueles tempos. Mas admitia que o “entretenimento de massa” tinha lá seu propósito: num mundo de pessoas solitárias e sem acesso aos objetos culturais.

Cordilheira é exemplo disso.

A certa altura do livro, um de seus personagens tem a pachorra de defender que “autores de segunda linha tendem a ser mais autênticos porque têm menos capacidade de maquiar a individualidade do que os move a escrever”.

É possível? Não. Não é.

Pra mim, se trata justamente do contrário: quanto menor o controle sobre o que se escreve, maior a chance de o autor se perder em vícios e platitudes.

Não vou negar que me distraí com a personagem principal do livro, Anita, jovem escritora de sucesso, que passa o tempo todo fazendo confissões de adolescente.

foto: Patrícia del Rey

Patrícia del rey, como Anita – clicada por ela mesma

Era engraçado. Mas, quando lia Cordilheira, tinha a impressão de que assistia a um reality show sobre o dia a dia de Daniel Galera.

No lugar de Anita, só via a figura dele, Galera, narrando de forma blasé, sua temporada em Buenos Aires. (Onde ficou para escrever esse livro, a convite da editora.)

Pagina após página, ia matando minha curiosidade de saber como deve ser a vida de alguém da minha geração, que ganha a vida escrevendo ficção.

O dia dele em Buenos Aires era de matar de inveja. Todos os dias, devia acordar, tomar um café com medialunas doces. E depois perder-se pela cidade, buscando inspiração para o livro. Visitava pontos turísticos, frequentava shows de rock. Badalava nas milongas e points de pegação da capital portenha.

Isso rende alguma literatura? Pra mim, não. No máximo, garante mais um produto da indústria cultural, fadado a vender centenas de exemplares e amealhar convites para palestras em feiras de livro – onde vai dar as mesmas respostas para as perguntas de sempre.

Não que isso seja ruim. (Juro que não quero ser sarcástico.) O próprio Galera já escreveu sobre isso na Piaui, num perfil sobre ele mesmo, mostrando como é o dia a dia de um escritor de ficção brasileiro, com contrato editorial.

Mas acho que isso é justamente o que a academia sueca alega, quando nega o Nobel de literatura aos escritores norte-americanos atuais. Para ela, esses caras não passam de cativos da própria cultura de massa que produzem.

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Sebo do Natal, em Botafogo/RJ, onde encontrei um exemplar de Cordilheira, de Daniel Galera

 

 

 

 

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A concentração foi marcada pras 17h. Era nosso primeiro desfile. Mas às 17h15 os food trucks já tinham desistido da gente. Recolheram as cadeiras e migraram em busca de melhores oportunidades, naquele final de terça-feira gorda. Ficou só uma kombi vendendo chopp da Brahma. Tava na cara que aquilo não ia dar certo.

A chuva caia fina, mas servia de desculpa para o vazio daquele frevo. O asfalto negro se espalhava entre as pessoas como um oceano, que como dizia Fernando Pessoa: Já não separava, mas unia.

A clarinetista da banda deve ter consultado a meteorologia, porque avisara na véspera que não ia dar pra aparecer. Ana Pessoa chegou, mas preferiu a Baratinha. Minha sogra também desanimou: “A sessão das 17h no Cine Brasília deve estar mais animada.”

Quando o chuvisco cedeu, lá pelas 18h e tanto, não havia mais desculpas: o bloco tinha de sair. Mas o DETRAN, que garantiria a segurança ao longo do trajeto, se retirara por falta de quorum.

Assim mesmo a alegria insistiu. A rota inicial seguia até o balão da Igreja Anglicana, na entrequadra 309/310, e descia a comercial local rumo ao Beirute.

No caminho a organização gritava. “Agrupa. Agrupa pra não dispersar”. Lembrei do Felipão tentando compactar o meio-campo contra a Alemanha na copa de 2014.

Quando chegamos ao posto da 309, o bloco decidiu fazer pausa pro xixi. Desconfiei que se tratasse de um truque para tentar recuperar o animo. Quem sabe algum morador se animava a descer. Quem sabe… Tipo Serenata de Natal.

Um grupo da melhor idade na calçada tentou ajudar, entoando mulata bossa-nova, mas o maestro pernambucano ao violão reprimiu: “Aí , não, né!”

Quando o bloco enfim chegou ao balão, a PM fechou o caminho e o guarda perguntou: “Pois, não? Pra onde segue o féretro?”

Quando entendeu o mal-estar, a autoridade se desculpou, mas repetiu o comando do Detran. Pra seguir em frente tinha de ter quorum mínimo.

Nossos organizadores ainda tentaram inflacionar a contagem, mas a PM foi precisa: além da minha presença, não devia haver mais do que os filhos dos componentes da banda. (Mal sabiam eles que a moça do bumbo era solteira e o menino que tocava flauta, menor de idade.)

Tentamos adicionar alguns fregueses, desavisados, que devoravam um dog no Clóvis, ali na entrada da 309. Mas a PM estava atenta. Nada feito!

A solução foi desistir da entrada triunfal no Beirute. E dar meia-volta na direção do ponto de partida, em frente ao Clube de Vizinhança.

Quando passamos novamente em frente ao posto da 309, o frentista bocejava.

O bloco até desistiu da tradicional parada técnica pro xixi. Era melhor acabar logo com aquilo, antes que ganhássemos o reconhecimento dos promotores da Lei do Silêncio.

Os últimos cem metros foram os piores. Tive de segurar o xixi até os banheiros químicos do ponto de partida. Caso contrário, se optasse pelo escuro atrás das árvores, o bloco iria se dispersar antes da chegada.

Ao final os quesitos ficaram assim: Nota dez pra PM, pela animação. Dez pra Kombi do chopp, pela hombridade. Dez pelo frevo, que apesar da saudade é sempre feliz no coração.

 

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