Uma carta dentro de um livro

Achei essa carta dentro de um velho livro.

Foi escrita por uma certa Ana e destinada à irmã dela, Catarina, que deveria ser mais velha e morar em outro lugar.

Na carta, Ana conta o trivial: família, doenças e notas da escola. Mas de alguma forma a saudade que a menina sentia pela irmã, naquele outono de 1970, ainda permanece expressa na carta até hoje.

Naturalmente. Cartas são literatura bruta, revelam os sentimentos de todo tipo de gente: humildes, intelectuais, famosos, anônimos, quem quer que seja.

Deve ser a mais democrática das artes. Nas cartas o que vale não é o estilo, nem a precisão gramatical. O importante é o registro do que há de essencial no espírito de quem escreve, quer ele queira ou não. Diferencial que não foi herdado pelo e-mail, nem vai ser pelas futuramente hegemônicas mensagens de vídeo.

Afinal de contas, a tecnologia do tempo real não deixa espaço para a reflexão ou para o sentimento – matérias-primas da carta. Hoje o que importa é informação e ponto final. Uma pena.

Bem que a Unesco podia decretar que toda as cartas escritas antes da Internet se tornassem patrimônio da humanidade – assim como fez com os navios naufragados, que repousam no fundo dos oceanos.

A carta é a história contada em segredo, na intimidade das pessoas. Muitas vezes, a única forma de seguir os vestígios de povos oprimidos, cujas vozes foram censuradas.

Depois de compartilhar o sentimento das duas irmãs, comecei a desejar que Ana e Catarina ainda estivessem vivas e próximas.

Me preocupei com o destino delas pelo fato de o livro ter chegado à minha mão como resquício de um espólio.

Besteira…

Se pudesse, devolveria a elas esse pequeno pedaço de passado.

Capturar

Tem também: A verdade de uma foto

Meu Primo Renato veio com a família passar uns dias com a gente nesse verão.

Junto com eles, lembranças de décadas e décadas atrás, quando a família passava as tardes sentada à mesa recheada de receitas da vó, da tia, da tia-vó, da bisavó.

A saudade daqueles almoços, que emendavam com as jantas, mexeu com o coração da gente. Entre as receitas, recordamos a da de carne de onça, hoje meio fora de moda, mas que ainda é servida nos botequins do centro de Curitiba.

Renato explicou que a família dele, do lado de lá, de origem alemã, também adorava carne de onça, mas que chamava de hackepeter. Ele garatiu que entre uma receita e outra há variações que só quem teve avó cozinheira pode saber. E prometeu, pro dia seguinte, matar a saudade da gente,

De manhã saímos Copacabana adentro à caça de um minucioso pedaço de coxão mole. Encontramos um açougueiro sensível que limpou toda a peça pra gente. Com todo carinho moeu duas vezes. Na saída do moedor, a carne deslizava como se fosse mina d´água.

IMG_2065

A receita levou salsinha e cebola picadas. Molho inglês e whisky – pra surpresa de Zé Motta, que começou a desconfiar.

IMG_2066

Tudo pronto? Não! Pra quem não sabe de nada a preparação do hackepeter termina à mesa.

IMG_2068

Quando o prato chegou, só se ouvia silêncio. Havia um furo no meio daquele pudim de carne temperadíssima, por cima do qual Renato quebrou um ovo, misturando com gema e tudo.IMG_2077

 O pão veio quentinho do forno.

IMG_2070

Na mala, Renato tinha trazido excelentes cervejas curitibanas – top ten em qualquer lista de quem entende.

Sente só:

IMG_2083

IMG_2079IMG_2080

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 4.408 outros seguidores