Se vc ler toda a obra de um autor mediocre vai terminar a leitura enfastiado e se questionando sobre o tempo que perdeu. 
A final de contas, o que ele disse no primeiro livro (se é que disse alguma coisa) vai continuar te dizendo em todos os outros.
Mas se vc ler um autor que, além ou a despeito do conteúdo, mexe com as estruturas sintáticas, essa leitura vai te levar mais além.
E se depois ainda, for ler outro cuja a obra reelabroa a formação das palavras, principio de toda arte, sua mente crescerá ainda mais.
E, depois disso, se ainda tiver gana e decidir ler algum outro escritor que talvez não aceite nenhum desses desafios, mas procure algum outro insuspeitado, pode acreditar, sua mente estará sintonizada com a inteligência do mundo.


‘A casa da gente ficava na periferia da cidade, saindo de uma das estradas asfaltadas. A gente tinha um cachorrão que o papai deixava na corrente no gramado da frente. Uma cruza de pastor alemão, bem grande. Eu odiava a corrente mas a gente não tinha cerca, a gente ficava bem encostado na estrada ali. O cachorro odiava a corrente. Mas ele tinha dignidade. O que ele fazia, era que ele nunca ia até o comprimento todo da corrente. Ele nunca ia nem até onde a corrente ficava tensa. Nem se o carteiro encostava o carro, ou um vendedor. Por dignidade, esse cachorro ali fingia que tinha escolhido uma área pra ficar que só por acaso ficava dentro dos limites da corrente. Nada fora daquela área bem ali interessava. Ele simplesmente tinha interesse zero. Aí ele nunca percebia a corrente. Ele não odiava. A corrente. Ele só foi lá e decidiu que ela não era relevante. De repente ele nem estava fingindo — de repente ele foi lá mesmo e escolheu aquele circulozinho do mundo dele. Ele tinha lá o seu poder. A vida inteira naquela corrente. Eu gostava pra caralho daquele cachorro.’
tradução: Caetano Galindo

Em tradução o Rei Palido