por Alejandro Gaviria*

Por aquela época Borges acenava à distância com as mãos, a pedindo em casamento, e ela devolvia o aceno com um dedo, sempre dizendo que não.

Muitos anos depois, diante da eminência da morte, Jorge Luiz Borges haveria de recordar a profundidade de uma tarde já remota, “os portões de um jardim junto ao ocaso”. As recordações são reveladas em Haydée Lange, um poema com nome de mulher, um dos quarentas e tantos que conformam Los Conjurados, seu último livro, publicado em 1985 em Genebra, Suíça, uma de suas várias pátrias. “Tua ojos que miraban otras cosas/ el marco de una jardín junto al ocaso, / … / los viernes compartidos. Esas cosas, / sin bombrar te te nombrar-te te nimbaram”, evocava Borges com nostalgia de nostalgias.

Sessenta anos atrás, em seu primeiro livro, Fervor de Buenos Aires, Borges já havia mencionado Haydée Lange, a mesma mulher de suas nostalgias em Genebra. O poema dedicado a ela era curto e enigmático, Llaneza, que começa com o mesmo portão (verja) e o mesmo jardim. “Se abre la verja del jardín / con la docilidad de la página/ que con frecuente devoción interroga / y adentro las miradas / no precisan fijarse en los objetos / que tá están cabalmente em la memoria”.

O Google, o memorioso, oferece mais detalhes sobre Haydée Lange, a mulher que aparece no primeiro e no último livro do poeta de muitas pátrias. Haydée vivia com sua irmã Norah numa casa situada nos arredores da cidade, a partir de onde, na hora do crepúsculo, se podia ver como o sol descia limpidamente no horizonte. Ambas as irmãs eram altas, de ascendência norueguesa e refinados gostos literários.

Borges as visitava todas as sextas-feiras no final da tarde. Norah escreveu um curto livro de poemas adolescentes que Borges fez o prólogo com emoção — sem ironias. No prólogo, o primeiro dos 250 que escreveria durante sua extensa vida de promotor literário, aparece novamente a casa do portão, do jardim e do ocaso: “uma quinta que não distinguirei com mentirosa precisão topográfica, me basta determinar que está na profundeza de uma tarde”.

O Google também traz uma fotografia em preto e branco, na qual aparecem duas figuras sorridentes. Um homem de baixa estatura com paletó cruzado e uma barba espessa, junto a uma mulher mais alta, vestida de branco e com um chapéu de lado.  Na parte inferior da foto há uma inscrição em caligrafia legível: “Haydée Lange y Georgie de barba”, diz. A foto é do final dos anos trinta. Mais de uma década depois da publicação dos poemas adolescentes de Norah e juvenis de Borges.

Por aquela época, Borges ia esperar Haydée Lange na saída do trabalho dela em um banco, acenava à distância com as mãos, a pedindo em casamento, e ela devolvia o aceno com um dedo, sempre dizendo que não.

O Livro

Há algumas semanas, notívago num sábado de madrugada, pulando de um site a outro na internet, cheguei à página de uma loja de antiguidades de Buenos Aires, Argentina. Ali encontrei uma velha edição maltratada e ruída de traça da célebre novela O Agente Secreto de Joseph Conrad.

O dono da loja chamava a atenção sobre uma particularidade com valor comercial: o livro em questão havia sido parte da biblioteca pessoal de Borges. Decidi comprar. Não custava muito mais que um livro novo e sua deterioração não parecia inexorável. As coisas morrem muito mais lentamente que os homens.

Duas semanas depois chegou a encomenda argentina, embrulhada num plástico bolha, sem notas nem maiores explicações. Na última página, uma inscrição em letras mínimas, quase invisível, traz a marca de seu antigo dono. A letra “t” de cabeça para baixo, que por muito tempo distinguiu a rubrica de Borges.

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Há também uma referência de tempo e local: Adrogué, 1948. Sobre Adrogué, escreveu certa feita o poeta: “Era muito lindo, um povoado labiríntico. Às vezes, em algumas noites de verão, saíamos eu, meu pai e minha mãe a nos perder deliberadamente. No começo dava um pouco de trabalho, mas logo atingimos a perfeição, e ficou fácil se perder”.

Borges lera O Agente Secreto ao menos dez anos antes. Em 1937, publicou uma resenha sobre o longa-metragem “Sabotagem” de Alfred Hitchcock, que continha uma menção explícita à novela de Conrad.

Sabotagem, segundo Borges, é uma adaptação ruim da novela conradiana. Borges cita uma larga passagem da novela com o fim de contrastar a profundidade de Conrad com a torpeza de Hitchcock, e denunciar ao mesmo tempo a conversão de um drama psicológico em uma fábula sentimentalista e mesmo insípida.

Conrad, como Borges, era um conservador que acreditava que havia pouco a conservar. O Agente Secreto é uma novela pessimista, quase um protesto contra o ser humano.

O único personagem moralmente respeitável, um rapaz retardado, que não podia suportar a dor de seus semelhantes nem o maltrato dos animais, termina despedaçado acidentalmente, numa tentativa malfadada de dinamitar Observatório Astronômico de Greenwich. “A História é feita pelos homens, mas não com a cabeça”, escreve o narrador em tom irônico no final da novela.

O Presente

Borges marcou sua cópia de O Agente Secreto em 1948. O livro não tem sinais particulares de leitura. Nem dobras, grifos ou comentários nas margens. Não parece ter sido manipulado em excesso. Por dez anos, uns meses mais, uns meses menos, fez parte da biblioteca do poeta, depois mudou de mãos, foi parar em outra biblioteca da mesma cidade de Buenos Aires: a biblioteca de Haydée Lange, a mulher que rechaçava as propostas matrimoniais com o dedo.

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No começo, não notei, me pareceu um assunto irrelevante, mas alguns dias depois os acontecimentos que ligavam as duas histórias ficaram evidentes. O livro está marcado na primeira página com duas letras grandes, conspícuas, que contrastam com a marca diminuta, tímida do poeta. Na segunda página, se repetem as letras grandes, mas aparece um detalhe adicional, uma informação sobre a origem do livro: “Haydée Lange, regalo de Georgie, 20-6-58”, diz a inscrição. A caligrafia é a mesma. Exatamente a mesma, que aparece debaixo da foto da mulher de branco e do homem de barba.

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No começo dos anos vinte, dedicou a ela um poema; no final dos anos trinta, propôs casamento; no final dos cinquenta, lhe deu de presente um livro que resiste em desaparecer; e, nos anos oitenta, ante a iminência da morte, compões um poema para ela.

Sempre, por todos esses anos, haveria de se lembrar do por do sol na casa de sua juventude em Buenos Aires. No final da vida, em 1984, Borges narra um sonho, uma conversa com Haydée Lange, em um restaurante do centro: “Imediatamente, me lembrei, que Haydée Lange estava morta havia muito tempo. Era um fantasma e eu não sabia. Não senti medo; senti que seria impossível e que talvez descortês lhe revelar que era um fantasma”.

Ambos são fantasmas agora, deles restam apenas as letras. Suas letras no meio de um livro que resistiu ao passar do tempo. Letras, datas e assinaturas para olhar com lupa em meio a história de Mr. Verloc, espião e vendedor de tintas.

Publicado originalmente em Universo Centro

Para versão em espanhol: Sagas Nordicas

Tradução: Luiz Motta

* Alejandro Gaviria é economista e engenheiro. Desde 2012 é ministro da Saúde e Proteção Social da Colômbia

Goycheneche enfrente ao seu teatro escola

Aqui é assim: você vai andando pelas rua e tromba com um teatro de bolso, aberto em qualquer canto, mas com gente fazendo arte de qualidade.
Hoje, no final da tarde, eu saia da Universidade Nacional e encontrei uma portinhola aberta que convidava para subir para o Teatro Goyenechus (Sempre Buenos Aires no meu caminho), que funciona na sobreloja.

Antes do espetáculo, a plateia foi convidada para tomar um trago no que simbolicamente seria o foyer.
Aproveitei e puxei um dedo de prosA com o diretor da casa. Mauricio Goyeneche toca o próprio teatro escola há 23 anos. Seu faturamento vem dos alunos e dos ingressos. Do governo só recebeu apoio em três oportunidades. Tampouco já levou algum dinheiro lavado de empresa corruptora.
Mas não reclama. “Yo hago”, comenta cochichando. 

um trago antes da peça no Teatro Goychenechus

 

A funcion da noite começa. Ao palco, sobe Haydeé García Buscaglione com um monólogo sobre Garcia Lorca que, segundo conta o texto, com seis anos, já estranhava tudo ao redor e escrevia poesia.

Haydeé é atriz do Teatro Walymai, sediado em Talca, no sul do Chile.
Tem um metro e cinquenta, mas faz um Frederico enorme, que, como dizia Mario de Andrade, era daqueles moços que já nascem velhos. 

No palco, seu corpo todo é expressão. Cabelo, joelho, pé, unha. Nenhum parte fica à toa. Tudo movimento preciso.

Haideé em “Federico, El niño poeta”

No final do espetáculo, o director-compañero abraça sua atriz e, emocionado, confessa que só teve dinheiro pra passagem de vinda.

Nada de novo, no mundo das artes. Digo: Das velhas artes.

O que me surpreendeu foi que nem Goyeneche, nem Haydeé, nem seu diretor-compañero lamentaram a falta de apoio, de grana, de fama.

Estarem ali naquele instante, parecia, para eles, nada mais que uma questão de sorte.

Algumas esquinas depois do Goyenechus, encontro outro teatro escola/companhia de teatro, que também parece caminhar com as próprias pernas. 

Não ostenta banner com apoio de ninguém e também recebem companhias de teatro estrangeiras. Mas as semelhanças param por aí.

A CasaE é suntuosa. Projeto inspiradíssimos em Le Courbusier: Linhas retas, pilastras redondas, desvãos.

Tem um bar, um palco e sete salas de espetáculo. Umas bem pequenas, outras menor ainda. Tudo micro.
Na regra da Cada, cada funcion leva 15 minutos, mas volta ao palco quatro vezes por noite.

Casae: arte que abriga a arte

 A história do prédio remonta 1958. Parece que foi ideia de um milionário, que teria sofrido todo tipo de preconceito pela construção do que consideravam excentricidade.

O tal milionário morreu um ano depois da obra pronta. A casa errou de mão em mão durante décadas. Mas teve um final feliz.

Hoje é palco de teatro. Ironicamente, por vias tortas, concretizando a intenção do mestre Corbu de integração entre as artes. Como disse o diretor-companheiro, lá encima: “puro golpe de sorte”.

  

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