Antes de começar a ler “La recherche du temps perdu”, o título do volume I sempre me intrigou: “À côté de chez Swann”. O que um cisne teria a ver com uma obra como essa? Só depois me dei conta de que se tratava do nome de um dos personagens.

Mario Quintana, traduziu a obra, dividida em sete volumes, nos anos 40 e encontrou solução curiosa para os títulos dos volumes I e III. Optou por incluir a palavra caminho, que não constava explicitamente no original em francês. “No Caminho de Swann” e “O caminho de Guermantes”. Respectivamente, “Du côté de chez Swann” e “Le Côté de Guermantes”.

Nenhum dos tradutores subsequentes, que verteram a obra para o português, se arriscaram muito na conversão desses títulos. (Pelo que apurei, deve haver umas oito traduções entre brasileiras e portuguesas.) Das versões que encontrei, todas optaram pelo mais simples, “Do lado de Swann”, “para o lado de Swann”.

Inclusive essa deve ser a opção do jornalista Mario Sérgio Conti, que há uns dez anos decidiu que traduziria Proust. E desde então está debruçado em análises acuradas para não tropeçar nem no varejo nem no atacado.

Nas entrevistas que concedeu, defendendo seu desafio, não se sentiu obrigado a elogiar o trabalho de seu predecessor gaúcho. Questionou a habilidade que Quintana teria para manejar o francês, e apontou alguns erros inaceitáveis, pinçados no trabalho do poeta do Alegrete.

Para ir esquentando, vem publicando artigos na revista Piaui, mostrando quão acurada sairá sua tradução. E convence. Depois de ler os artigos me tornei testemunha do esmero com que vem se dedicando à obra. Nada pode dar errado na conversão do francês da belle époque para um público brasileiro da era digital.

Só acho que, essa precisão cirúrgica pode deixar o texto seco. Se Conti se conformar com “Do lado de Swann” vai começar com o pé esquerdo.

Até porque assim o título perde conteúdo. Uma vez que a preposição ‘chez’ (sem tradução para o português) traz uma nuança de intimidade, profundidade, que deveria de algum modo ser preservada.

Quintana acertou. Esbanjou elegância com “No caminho de Swann” e “O Caminho de Guermantes”. (Provavelmente, tomara conhecimento das versões para o inglês, “Swann’s Way” ou outra mais sofisticada “The Way by Swann’s”.)

Embora se afastem do original, elas se valem de uma linda imagem sobre o caminho. Caminho pelo qual o narrador percorria com a família em momentos cheios de epifanias durante a infância.

Só poetas de olhar aguçado como Quintana para saber que o importante no título não é a referência a Swann, que nem personagem principal era, mas o caminho em si — linda imagem bachelariana, que leva, que traz e que busca o tempo perdido.

Mas quem busca não procura

Quando ainda achava que lançaria sua tradução em 2014, centenário da publicação, Conti não disfarçava o entusiasmado. Numa entrevista ao diário gaúcho Zero Hora ensinou que era melhor optar por ‘procura’ do Tempo Perdido e não ‘busca’, como Quintana havia feito. Segundo ele, ‘procura’, está mais perto de ‘pesquisa’, além do que no francês ‘procura’ e ‘pesquisa’ têm a mesma tradução: ‘recherche’. (Jura?)

Mas não me sensibilizou. Seria mais nobre se tivesse admito que se tratava de uma estratégia para se diferenciar. E deixasse o leitor decidir.

Conti esmiúça também os motivos que teriam feito Proust incluir logo no início de sua narrativa uma citação a um livro de George Sand — pseudônimo de uma escritora vitoriana já esquecida pelo tempo. Segundo ele, a tal obra carrega uma relação edipiana nada velada, que revela muito das idiossincrasias dos dois Marceis do Tempo Perdido: autor e narrador.

Pode ser. Mas não foram tais delicadezas que me fizeram mergulhar em Proust nesse momento da minha vida. Para falar a verdade, estou pouco interessado em desvendar por que algumas obras são citadas e outras não, ao longo das cercas de três mil páginas de “La Recherche”.

Tampouco perco o sono tentando descobrir o que há por trás dessas frases longilíneas, recheadas de orações subordinadas, cujo ponto final está além da linha do horizonte. E que tanto debate vêm provocando desde que vieram à luz.

Até porque o ritmo impresso na narrativa, independente da pontuação — na verdade justamente por causa dela — é o que embala o leitor por esse oceano de palavras. O dia passa rápido lendo Proust. Percebi isso tanto no original, como na tradução do Quintana.

Minha leitura se concentra no que há de concreto no texto. As imagens me bastam. Sou discípulo de Alberto Caeiro: “Que metafísica têm aquelas árvores?”

E aí volto para a imagem inicial. Depois que li “O Caminho de Swann”, é só fechar os olhos, que me vêm à mente os dois caminhos que saem em sentidos opostos da propriedade de campo do narrador. Eles me lembram da casa da minha vó em Itaipava/RJ. Como Marcel, em Combray, eu também saia para passear com minha família, admirando os jardins e comentando a respeito das flores que iam nos surpreendendo durante a caminhada.

As igrejas e suas torres também marcam. Diariamente, quando encerro a jornada pelo universo do Tempo Perdido, me preparando para o jantar, me seguem na memória as imagens dos sinos que balançam nas torres ao longo do texto, marcando o tempo que já passou.

Quintana e os passarinhos

Já fiz a minha escolha: entre as novidades científicas esquadrinhadas pelos esforçados tradutores, embasados em compendios críticos, fico com a liberdade de quem traduziu com coração de poeta. Já que ler no original, me exigiria o dobro do tempo. (Minha licença médica não vai durar tanto assim.)

Veja se não tenho razão: No início do volume III, nas edições em que pesquisei, os tradutores recentes “procuraram” um termo correspondente em português para “pépiement matinal des oiseaux”. E de fato encontraram: “chilrear dos pássaros”. As traduções do português Pedro Temen e do carioca Fernando Py ficaram bem parecidas: “François achava insípido o chilrear dos pássaros” ou pior “O chilreio matinal dos pássaros soava sem graça a Françoise”.

Quintana pelo contrário se libertou dessas precisões acadêmicas. Preferiu a poesia dos passarinhos voando, num achado mais do que elegante: “O cortejo matinal dos pássaros parecia insípido a Françoise”.

‘Cortejo’, segundo Houaiss, é sinônimo de ‘comitiva’, ‘saudação’, ‘gesto atencioso ou palavra amorosa para com outrem’. Irretocável, não?

Vai competir com ele…

quintana

Quintana por Mário Guerreiro

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A noite da espera

Capa do novo livro de Hatoum: Resgate de uma Brasília sem alma

Nunca duvidei que a alma de Brasília estaria na mistura entre arquitetura, imigração e política. E sempre acreditei que só a literatura explicaria essa alquimia.

Comecei a ler “A Noite da Espera” com essa expectativa. Mas quando terminei vi que ainda não foi dessa vez que alguém conseguiu desvendar esse segredo.

Em entrevista que concedeu ao Estadão, Hatoum explica que o livro foi um resgate do próprio passado, a partir das lembranças de quando estudou em Brasília no final dos anos 60.

Se foi mesmo, bom pra ele. Literatura muitas vezes mesmo é voltada para dentro.

Mas eu pelo menos fiquei na mesma. O livro em nada me ajudou a responder as perguntas que me intrigam desde que cheguei por aqui. Obsessão que durante anos compartilhei com alguns amigos – intrigados como eu. Mas que hoje parecem indiferentes a eles hoje em dia. Talvez Clarice estivesse certa quando escreveu que essa cidade pensada não passa de “um passado esplendoroso que já não existe mais”.

De qualquer forma, achei a narrativa seca. Os personagens secos. Um visão seca do passado.

Será que era isso mesmo? Ou o autor que não teve paciência pra procurar um pouco mais de sensibilidade nos personagens e fatos daqueles tempos?

No começo de uma cidade onde tudo era possível.

Definitivamente Collor e Dilma, citados no livro, não são o espelho pra refletir a sensibilidade daqueles tempos.

Pelo menos não pra mim.

@jeniffergeraldine

 

Os 50 anos da morte de Le Corbusier e o debate que Brasília não vai fazer: http://bit.ly/2CzJzC9