Começou no último final de semana em Paris uma retrospectiva da obra do urbanista Le Corbusier, morto há 50 anos. No domingo, o Le Monde pegou o gancho da vernissage e soltou um artigo que lembrava o passado nazista do cara.

Disso eu não sabia.

O autor do texto, Michel Guerrin, garante que tem carta dele elogiando Hitler e que está documentado que o mestre modernista ganhou emprego em Vichy, durante a ocupação nazista.

Grave, né?

Preocupado com isso, deixei o brunch no novo ap da Aida pra depois e corri pro Centre Pompidou pra investigar a possibilidade de viver numa cidade construída a partir de ideais fascistas.

A exposição fica lá até três de outubro e é lindíssima. Le Corbusier foi também pintor cubista, escultor e documentou várias de suas ideias em curtas-metragens.

Sobre o debate fascista que o jornal tentou desenterrar, nem uma linha. Tampouco a mostra aborda sua passagem pelo Brasil ou sua influência sobre Brasília. O curador parece considerar ambos os fatos secundários na obra corbusiana.

Talvez sejam.

Mesmo sem ter achado o que tinha ido procurar, saí satisfeito com o que vi. Quem mora em Brasília pode se orgulhar de morar num lugar pensado a partir de ideias nobres. O projeto da cidade saiu de uma fonte criativa que sabia, como ninguém, combinar geometria e sensibilidade, natureza e funcionalidade, futuro com passado.

Visionário, Corbu, como era tratado pelos admiradores, estava convencido de que o chão pertencia ao povo. Daí a ideia de projetar suas obras suspensas sobre pilotis – regra da arquitetura candanga, cada vez menos valorizada. Quem não sabe disso sai por aí reclamando que Brasília não tem esquina.

(E pede Manuel nos shows de Ed Motta no exterior.)

fonte: http://friso.arq.br/2014/05/pilotis-o-que-e/

Pilotis – o chão é do povo

Uma escultura que Le Corbusier fez pra sua Cidade Radiante, em Marseille,  me marcou como a síntese das ideias avançadas sobre modernidade, que tanto mobilizavam Lucio Costa. Femme é feita em madeira e tem 1,83 metro. Diante dela, qualquer candango fica estático, como se estivesse diante do espelho.

Femme (3ème recherche)

Femme (3ème recherche), feita em madeira com 1,83 metro

Mais coisa, aqui:

Le Monde: Le Corbusier fut-il fasciste ou démiurge? (Procurei a tradução do artigo no site de Le Monde Brasil, mas não encontrei. Eles parecem estar mais interessados em defender a Dilma.)

– La charpente fasciste de Le Corbusier

– Dix choses à savoir sur Le Corbusier

Eita! Foi só falar nela, aí: Escultura de Le Corbusier leiloada por 3 milhões de euros

Uma carta dentro de um livro

Achei essa carta dentro de um velho livro.

Foi escrita por uma certa Ana e destinada à irmã dela, Catarina, que deveria ser mais velha e morar em outro lugar.

Na carta, Ana conta o trivial: família, doenças e notas da escola. Mas de alguma forma a saudade que a menina sentia pela irmã, naquele outono de 1970, ainda permanece expressa na carta até hoje.

Naturalmente. Cartas são literatura bruta, revelam os sentimentos de todo tipo de gente: humildes, intelectuais, famosos, anônimos, quem quer que seja.

Deve ser a mais democrática das artes. Nas cartas o que vale não é o estilo, nem a precisão gramatical. O importante é o registro do que há de essencial no espírito de quem escreve, quer ele queira ou não. Diferencial que não foi herdado pelo e-mail, nem vai ser pelas futuramente hegemônicas mensagens de vídeo.

Afinal de contas, a tecnologia do tempo real não deixa espaço para a reflexão ou para o sentimento – matérias-primas da carta. Hoje o que importa é informação e ponto final. Uma pena.

Bem que a Unesco podia decretar que toda as cartas escritas antes da Internet se tornassem patrimônio da humanidade – assim como fez com os navios naufragados, que repousam no fundo dos oceanos.

A carta é a história contada em segredo, na intimidade das pessoas. Muitas vezes, a única forma de seguir os vestígios de povos oprimidos, cujas vozes foram censuradas.

Depois de compartilhar o sentimento das duas irmãs, comecei a desejar que Ana e Catarina ainda estivessem vivas e próximas.

Me preocupei com o destino delas pelo fato de o livro ter chegado à minha mão como resquício de um espólio.

Besteira…

Se pudesse, devolveria a elas esse pequeno pedaço de passado.

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Tem também: A verdade de uma foto

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