Goycheneche enfrente ao seu teatro escola

Aqui é assim: você vai andando pelas rua e tromba com um teatro de bolso, aberto em qualquer canto, mas com gente fazendo arte de qualidade.
Hoje, no final da tarde, eu saia da Universidade Nacional e encontrei uma portinhola aberta que convidava para subir para o Teatro Goyenechus (Sempre Buenos Aires no meu caminho), que funciona na sobreloja.

Antes do espetáculo, a plateia foi convidada para tomar um trago no que simbolicamente seria o foyer.
Aproveitei e puxei um dedo de prosA com o diretor da casa. Mauricio Goyeneche toca o próprio teatro escola há 23 anos. Seu faturamento vem dos alunos e dos ingressos. Do governo só recebeu apoio em três oportunidades. Tampouco já levou algum dinheiro lavado de empresa corruptora.
Mas não reclama. “Yo hago”, comenta cochichando. 

um trago antes da peça no Teatro Goychenechus

 

A funcion da noite começa. Ao palco, sobe Haydeé García Buscaglione com um monólogo sobre Garcia Lorca que, segundo conta o texto, com seis anos, já estranhava tudo ao redor e escrevia poesia.

Haydeé é atriz do Teatro Walymai, sediado em Talca, no sul do Chile.
Tem um metro e cinquenta, mas faz um Frederico enorme, que, como dizia Mario de Andrade, era daqueles moços que já nascem velhos. 

No palco, seu corpo todo é expressão. Cabelo, joelho, pé, unha. Nenhum parte fica à toa. Tudo movimento preciso.

Haideé em “Federico, El niño poeta”

No final do espetáculo, o director-compañero abraça sua atriz e, emocionado, confessa que só teve dinheiro pra passagem de vinda.

Nada de novo, no mundo das artes. Digo: Das velhas artes.

O que me surpreendeu foi que nem Goyeneche, nem Haydeé, nem seu diretor-compañero lamentaram a falta de apoio, de grana, de fama.

Estarem ali naquele instante, parecia, para eles, nada mais que uma questão de sorte.

Algumas esquinas depois do Goyenechus, encontro outro teatro escola/companhia de teatro, que também parece caminhar com as próprias pernas. 

Não ostenta banner com apoio de ninguém e também recebem companhias de teatro estrangeiras. Mas as semelhanças param por aí.

A CasaE é suntuosa. Projeto inspiradíssimos em Le Courbusier: Linhas retas, pilastras redondas, desvãos.

Tem um bar, um palco e sete salas de espetáculo. Umas bem pequenas, outras menor ainda. Tudo micro.
Na regra da Cada, cada funcion leva 15 minutos, mas volta ao palco quatro vezes por noite.

Casae: arte que abriga a arte

 A história do prédio remonta 1958. Parece que foi ideia de um milionário, que teria sofrido todo tipo de preconceito pela construção do que consideravam excentricidade.

O tal milionário morreu um ano depois da obra pronta. A casa errou de mão em mão durante décadas. Mas teve um final feliz.

Hoje é palco de teatro. Ironicamente, por vias tortas, concretizando a intenção do mestre Corbu de integração entre as artes. Como disse o diretor-companheiro, lá encima: “puro golpe de sorte”.

  

Começou no último final de semana em Paris uma retrospectiva da obra do urbanista Le Corbusier, morto há 50 anos. No domingo, o Le Monde pegou o gancho da vernissage e soltou um artigo que lembrava o passado nazista do cara.

Disso eu não sabia.

O autor do texto, Michel Guerrin, garante que tem carta dele elogiando Hitler e que está documentado que o mestre modernista ganhou emprego em Vichy, durante a ocupação nazista.

Grave, né?

Preocupado com isso, deixei o brunch no novo ap da Aida pra depois e corri pro Centre Pompidou pra investigar a possibilidade de viver numa cidade construída a partir de ideais fascistas.

A exposição fica lá até três de outubro e é lindíssima. Le Corbusier foi também pintor cubista, escultor e documentou várias de suas ideias em curtas-metragens.

Sobre o debate fascista que o jornal tentou desenterrar, nem uma linha. Tampouco a mostra aborda sua passagem pelo Brasil ou sua influência sobre Brasília. O curador parece considerar ambos os fatos secundários na obra corbusiana.

Talvez sejam.

Mesmo sem ter achado o que tinha ido procurar, saí satisfeito com o que vi. Quem mora em Brasília pode se orgulhar de morar num lugar pensado a partir de ideias nobres. O projeto da cidade saiu de uma fonte criativa que sabia, como ninguém, combinar geometria e sensibilidade, natureza e funcionalidade, futuro com passado.

Visionário, Corbu, como era tratado pelos admiradores, estava convencido de que o chão pertencia ao povo. Daí a ideia de projetar suas obras suspensas sobre pilotis – regra da arquitetura candanga, cada vez menos valorizada. Quem não sabe disso sai por aí reclamando que Brasília não tem esquina.

(E pede Manuel nos shows de Ed Motta no exterior.)

fonte: http://friso.arq.br/2014/05/pilotis-o-que-e/

Pilotis – o chão é do povo

Uma escultura que Le Corbusier fez pra sua Cidade Radiante, em Marseille,  me marcou como a síntese das ideias avançadas sobre modernidade, que tanto mobilizavam Lucio Costa. Femme é feita em madeira e tem 1,83 metro. Diante dela, qualquer candango fica estático, como se estivesse diante do espelho.

Femme (3ème recherche)

Femme (3ème recherche), feita em madeira com 1,83 metro

Mais coisa, aqui:

Le Monde: Le Corbusier fut-il fasciste ou démiurge? (Procurei a tradução do artigo no site de Le Monde Brasil, mas não encontrei. Eles parecem estar mais interessados em defender a Dilma.)

– La charpente fasciste de Le Corbusier

– Dix choses à savoir sur Le Corbusier

Eita! Foi só falar nela, aí: Escultura de Le Corbusier leiloada por 3 milhões de euros

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