Graças a uma cirurgia no joelho, tirei um valeProust para me dedicar a longas jornadas de leitura de “Em busca do tempo perdido”. Com o atestado médico pendurado na porta do quarto, tenho as manhãs, as tardes, as noites e até as madrugadas para ler o quanto quiser – isolado do planeta.

Mas Proust é exigente. Sua leitura é demorada. Cíclica. Como num jogo de criança, cuja graça é ter de ficar sempre voltando uma, cinco, dez casas ou até para o início da partida.

Mas enfeitiça. Antes de chegar à exaustão, sou capaz de passar horas a fio, convivendo com aquelas personagens vivas, reais, que poderiam ser um vizinho, um chefe, eu mesmo.

Aconteceu que, ontem, depois de um dia inteiro mergulhado na belle époque proustiana, não consegui dormir. Voltei à poltrona, mas não tive condição de retomar a leitura.

Pensei em ler outro autor. Mas qual? Quem naquela estante se mediria com Proust. Ora vamos, qualquer um. Só um passatempo. Sem compromisso. Proust nem vai ficar sabendo. Como uma pulada de cerca – igual àquela do marido da Gisele Bündchen, que, apesar de ter ao lado a mulher mais linda e rica do mundo, naquele dia preferiu a babá.

Foi aí que lembrei de “Como Proust pode mudar sua vida” do Alain de Botton. Assim, pelo menos, apesar da traição, seguiria fiel ao universo proustiano, que tem me acolhido tão profundamente nestes tempos de reclusão.

Mas o livro de Botton é ruim. Nos capítulos que li não percebi nada que fugisse do óbvio. Todos repetindo o mesmo título: “como ser isso”, “como ser aquilo”, tudo para garantir uma resposta rápida ao consumidor.

Dá a impressão de que o autor nem tinha a pretensão de oferecer novas respostas. Parece querer mais é reforçar aquelas que seu cliente já tem. (Tudo a ver com esses tempos em que as verdades já nascem definitivas.)

O fato é que o livro, como produto, vem com defeito de fabricação. Seu texto é contraditório, uma vez que, quem lê esse tipo de superficialidades só aceita repostas que se encaixem nas próprias certezas. Gente assim nunca lê Proust.

Proust é o contrário disso tudo. Sua escrita não faz concessões. Nela as coisas se detém. Esperam. Mas nunca estacionam.

Talvez os editores até soubessem disso. Talvez pouco se importassem. Para eles Proust era só a grife que agregaria valor.

No capítulo oito, “Como ser feliz no amor”, Botton argumenta em favor dos arcaicos ritos de conquista. Vaticina que as relações entre homens e prostitutas são frívolas. E vem com aquela balela católica, segundo a qual o pobre valoriza mais a roupa que acabou de comprar do que o rico, que faz isso todo dia.

Ele quer a volta dos tempos da virgem difícil. Atitude que – sem nem querer entrar no debate sobre política de minorias – nunca me comoveu. Me suava falso quando na primeira noite a menina adiava nossa transa só para fazer gênero.

E os capítulos se seguem: “Como ser um bom amigo”, “Como não se apressar”, etc.

Pra não dizer que não gostei de nenhum deles, o último vem com um nome intrigante: “Como abandonar os livros”.  Trata-se de uma crítica à idolatria que podemos votar às obras de arte.

Botton visita a comuna que inspirou Proust a criar sua Combray – localidade imaginária onde começa o romance. E conta que, nos anos 70, um prefeito cheio de visão estratégica justapôs “combray” ao antigo nome da cidade, para que ela pudesse aparecer nos mapas. E funcionou.

Atualmente Illiers-Combray é visitada por turistas do mundo inteiro, muitos dos quais talvez nunca tenham lido Proust, mas estão ávidos pra consumir o universo de “Em busca do tempo perdido”. Guias turísticos vendem roteiros para vários locais que supostamente têm referência na obra, com dezenas de fetiches à disposição. Inclusive incríveis rosquinhas madeleines de plástico.

No fim da leitura o sono chegou e voltei pra cama com a impressão de ter invertido a ordem natura das coisas. No lugar de o livro de Botton ter me levado a ler Proust, foi este que me levou a ler aquele.

E acabou que o Botton me autoajudou mesmo. Agora sei que pausas na leitura virão a calhar para poder terminar as três mil páginas restantes de La Recherche (abreviação da obra-prima de Proust reservada àqueles que já superaram as mil primeiras páginas).

Proust

Proust: Tudo isso que toma forma saiu de minha xicara de chá

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Depende da idade de quem responde. Pra mim, por exemplo, arte tem um sentido mais trivial do que tinha 25 anos atrás.

Platão conta que Sócrates questionou a um ancião que dava uma festa, qual a melhor coisa da velhice.

 — Se libertar das paixões, teria respondido o anfitrião.

Entendo isso agora. Sempre tive um expectativa apaixonada em relação à arte. Pra mim essa faculdade tinha a obrigação de ser transformadora. Tinha de ser difícil. Intransigivelmente, exigente.

Hoje estou mais descançado. Qualquer composição que atraia, mesmo por um segundo, a atenção de alguém, tá valendo.

É inútil a Crítica querer julgar a vontade de um fãque ouve sempre um mesmo tipo repetitivo de música. Há uma química entre eles que parece funcionar.

Alguns artistas ainda acham que sua produção deveria carregar alguma mensagem reveladora, mesmo que formal, mesmo que estética.

Ok. Falo sério. Mas isso hoje me soa a presunção.

Me vem à memória o poema A Máquina do Mundo do Drummond de Andrade.

Longo texto em versos em que ele revela seus afãs de conhecer as engrenagens por trás de tudo.

Ambições que no entanto, ao longo da vida, foram ficando pelo caminho.

Um dia, já velho, caminhando por uma rua de Itabira, do nada, desvela-se no firmamento a revelação de tudo.

Drummond olha aqilobtudo, mas não se surpreende. Dá meia volta e segue caminhando. Agora é tarde.