Depende da idade de quem responde. Pra mim, por exemplo, arte tem um sentido mais trivial do que tinha 25 anos atrás.

Platão conta que Sócrates questionou a um ancião que dava uma festa, qual a melhor coisa da velhice.

 — Se libertar das paixões, teria respondido o anfitrião.

Entendo isso agora. Sempre tive um expectativa apaixonada em relação à arte. Pra mim essa faculdade tinha a obrigação de ser transformadora. Tinha de ser difícil. Intransigivelmente, exigente.

Hoje estou mais descançado. Qualquer composição que atraia, mesmo por um segundo, a atenção de alguém, tá valendo.

É inútil a Crítica querer julgar a vontade de um fãque ouve sempre um mesmo tipo repetitivo de música. Há uma química entre eles que parece funcionar.

Alguns artistas ainda acham que sua produção deveria carregar alguma mensagem reveladora, mesmo que formal, mesmo que estética.

Ok. Falo sério. Mas isso hoje me soa a presunção.

Me vem à memória o poema A Máquina do Mundo do Drummond de Andrade.

Longo texto em versos em que ele revela seus afãs de conhecer as engrenagens por trás de tudo.

Ambições que no entanto, ao longo da vida, foram ficando pelo caminho.

Um dia, já velho, caminhando por uma rua de Itabira, do nada, desvela-se no firmamento a revelação de tudo.

Drummond olha aqilobtudo, mas não se surpreende. Dá meia volta e segue caminhando. Agora é tarde.

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lemman

Jorge Paulo ​Lemann – o pai do elixir de vida longuíssima

para Humberto Viana

Certa feita, subindo um rio em Rondônia, acompanhando a fiscalização do Ibama, atracamos num quiosque de barranco, perdido numa dessas infinitas curvas dos rios amazônicos.

No trapiche, ao sol que escaldava, jaziam quatro engradados de cerveja, deixados pelo regatão, à espera de alguma alma que os recolhesse.

Sentamos à mesa sob as árvores. A dona do restaurante avisou que estávamos com sorte: a cerveja tinha acabado de chegar…

Pra quem tinha suportando cinco horas de um suor tão grosso como a água turva do rio ou o ar que se respirava, foi fácil encarar aquilo como se fosse um chopp que fluísse da serpentina em bar com ar-condicionado em Copacabana.

Mas era aterrorizante ver a sede dos meus companheiros do Ibama — gente rodada como pneus de caminhão — diante daquela bebida que efervescia no copo como detergente. Mas pouco importava pra quem já estava fora de casa havia uma semana.

Enquanto o tucunaré demorava, meu cérebro começou a divagar. De fato, era impressionante a bebida estar íntegra depois de tudo que deveria ter sofrido pra chegar àquela mesa, no meio daquele nada biodiverso.

“Pra competir nesse mercado, a cerveja tem de ser fabricada como se fosse ração de guerra”, conclui.

Fui pesquisar e estava certo. Desde que cerveja é cerveja, tenta-se de tudo para conservá-la o maior tempo possível. Para os egípcios, a própria ideia de cerveja já era uma estratégia de conservação. O trigo, fermentado e armazenado em estado líquido, durava mais que na forma de pão.

Já nos tempos coloniais, os ingleses descobriram que reforçar o lúpulo garantia a integridade da cerveja nas longas travessia entre a Grã-Bretanha e a Índia, daí nasceu a India Pale Ale.

lúpulo para viagem

De qualquer forma, segundo me contou Alexandre Bazzo, dono da Bamberg, o melhor para a cerveja é não viajar. O lúpulo ainda é um conservante eficiente, mas cerveja não combina com estrada. E como deve estar escrito em algum para-choque de caminhão: o único sabor que a distância preserva é a saudade. “Cerveja fresca bebe-se perto de casa”, ensina Bazzo.

O problema é que, durante o século passado, a indústria decidiu o contrário, que cerveja deveria viajar, sim. E que o sabor poderia ficar de lado. (O que não foi exatamente um problema no Brasil, onde é servida estupidamente gelada.)

E tome química para atender a logística das empresas. E baratear custos, claro.

Resultado: virou um Frankenstein. Hoje em dia, é melhor não saber como é feita. Igual a salsicha da Fátima Bernardes. Igual política.

Na fábrica da Ambev, o produto que sai do outro lado da engrenagem automatizada é um fóssil pronto. (A cara do pai.) Dá para por uma data de validade de mil anos…Luz.

Assim quando o sucessor do homo sapiens for visitar sua família lá para as bandas do Trappiste 1, o tal sistema planetário recém descoberto, ele vai poder saborear um Budweiser vintage (transgênica até o vidro da garrafa) acompanhada de barrinhas de cereais plásticos sabor bacon. E discutir as contradições entre preservar o planeta ou acelerar o crescimento da colônia.

i vitelloni

Amazônia, 1927 – foto: Mário de Andrade