para Denise Bottman

Sobre a mesa muitos livros espalhavam-se ao redor do computador. Eram edições que explicavam Joyce, destrinchavam a língua inglesa, conduziam turistas pelas ruas de Dublin.

Aquele fardo estendia-se há meses, sem data pra acabar. Mas Dai Congrong tinha espírito forte.

Felizmente o marido estava empregado. Para ele, pouco importava o que aprendera na escola rural. Preocupava-se mais com a iminente substituição do chefe imediato, na corporação onde trabalhava.

Acordava diariamente antes de o sol nascer. Mas sempre encontrava a mulher sentada à mesa de trabalho, com o rosto iluminado pela tela do computador. Estranhava o fato de ela pouco escrever. Apenas lia, lia e relia. “Pra quem pretende traduzir um livro de 650 páginas, me parece pouco produtivo”, pensava. Mas preferia não comentar.

Os meses se passaram e a mulher cada vez mais distante. Falavam-se pouco. Isso porque chinês já quase não fala nada. Dias transpassavam sem que pronunciassem palavra.

No final da tarde ao retornar da fabrica, abria a porta e seu olhar acompanhava a mulher caminhar até o fogão. Ela esquentava o arroz. E eles jantavam num silêncio exaurido.

Depois lhe restava assistir ao futebol com volume no zero. Quando ela aceitara a empreitada, combinaram que o silencio seria insumo. Para piorar, os jogos do campeonato chinês sempre terminavam empatados.

Ao final das partidas, resignado, recolhia-se cabisbaixo, como se estivesse na Cidade Proibida. Quanto a Dai, ela seguia trabalhando madrugada adentro. Ele jamais soube até que horas ela costumava resistir.

O mais difícil era reconstruir em mandarim, as sentenças fugidias de Joyce. A solução foi quebrá-las em inúmeras pequenas frases.

O resultado surpreendeu. Ao verter para o mandarim, Dai ia conseguindo desatar cada nó da narrativa multilíngue joyceana. Saiu um texto claro e simples, quase didático.

Entretanto, com o passar dos meses, o marido percebeu que a esposa se transformava. Mudara para pior. Nitidamente mais magra. Seus olhos escureceram. O amarelo do rosto desbotou. Para uma alma oriental, adaptada a estabilidades milenares, aquela mudança abrupta parecia prenunciar doença.

Apesar disso, o trabalho prosperava. O editor preocupava-se cada vez menos, ao passo que Dai deixava de se alimentar. Comia menos e menos. Até o dia que o marido passou a jantar sozinho.

Mas o editor entusiasmava-se. Quando conversavam, falava em lucro. Mas para o marido, chinês casado, urbano, empregado nas linhas de produção, riqueza era piada.

Nas últimas paginas da tradução, Dai era um fiapo de gente. Sua alma parecia estar se transferindo para dentro daquele livro, página após página. Como transfusão.

Ao final do trabalho, sentia-se doente. Seu marido tinha a sensação de estar viúvo.

Mas a obra encheu os olhos dos acionistas.

Nos minutos finais, antes de o livro ser impresso, Dai ainda releu sua tradução, checando cada palavra, cada vírgula. Entregou o último print ao editor, dirigiu-se a porta de saída e desapareceu na Xangai engarrafada.

*Dai Congrong terminou a tradução em 2013, trabalho que levou oito anos. Sua obra tornou-se um bestseller na China. Aqui, a reportagem que saiu no Guardian: Finnegans Wake becomes a hit book in China

Para ela, Joyce é doença; pra mim foi cura.

xin_330504311622625046932-gg1

Dai Congrong, em visita a Dublin

 

 


Tô adorando o Uber.

UberX, claro — costumizado para o meu bolso. Foi-se o tempo daqueles taxistas mal-educados, reacionários, que não ligam o ar condicionado. E sempre deixam a impressão de estar esticando a corrida.

Brasília merece essa atualização. Principalmente aqui, onde quem usa preferencialmente transporte coletivo tem de ter à disposição um serviço de emergência. Ônibus em Brasília é igual a amada do Fernando Pessoa: Pode passar ou pode não passar. E se passar talvez nem perceba que você existe.

Agora com Uber tudo é monitorado por satélite. (O que aliás era um das poucas exigências da licitação das linhas urbanas do Agnullo, mas que tampouco foi implanta.) O aplicativo te informa de antemão o preço, a distância, o percurso e o tempo da corrida. Tudo descontado no cartão.
No domingo de manhãzinha, acionei o Uber. Quem apareceu foi a Patrícia. Carioca, Servidora pública concursada, há 12 anos na Previdência Social, voltou à Capital recentemente pra assessorar o gabinete da presidência.

Uber pra Patricia é sobretudo uma forma de enfrentar o tédio da Capital. Durante os finais de semana, deixa o déficit crônico da previdência em casa e relaxa ao volante pelas ruas brasilienses..

Largas avenidas. Sem trânsito. E um bom papo sem compromisso. Isso se a pessoa quiser conversar. “Muitos desconversam”, reclama.

Fruição — Durante o trajeto, Patricia contou que, havia saído de casa pra fazer compras às seis da tarde de sábado, mas recebeu uma chamada durante o caminho. Era um grupo de estudante que ia organizar uma festa na UNB.

Lá chegando, recebeu outra chamada. Depois outra. E assim foi a noite toda. Papo vai; papo vem, quando deu por si, já tinha passado das três da madrugada.

Na aurora, levou pra casa três meninas que diziam que às sete iriam fazer a prova de um concurso público.
“Sem dormir, duvido que tenham sucesso na prova”, reparou. “Vão lá mais pra passar o tempo, combater o tédio”, filosofou.

“Também. Numa cidade que não tem praia”, emendou.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 4.654 outros seguidores