20140720-222137-80497204.jpg

Por Stefan Zweig

Ali estão eles, esperando silenciosos. Estão calados, encostados na parede. Parecem dormir, no entanto seus títulos parecem olhares que nos fitam. O olhar, as mãos passam por eles, mas eles não clamam suplicantes, não se anunciam. Nada exigem. Esperando até serem abertos, só então eles se oferecem. Primeiro: silêncio em torno de nós, silêncio dentro de nós. Estamos então preparados para eles. Uma noite, ao voltarmos cansados de um passeio, uma tarde quando fatigados dos homens, uma manhã despertando atordoados por um pesadelo. Podemos ter um diálogo e, contudo, querer ficar sós. Aproximamos-nos da estante com o agradável pressentimento de uma doce sensação: cem olhos, cem nomes, nos olham, pacientes e mudos, à procura do olhar indagador – como escravas de um harém para o amo –, aguardando humildes o chamado e ainda felizes de serem úteis, se forem escolhidos. Depois o dedo como que tateia sobre o teclado para encontrar o som da melodia que vibra intimamente: curva-se na mão o ser alvo e surdo, como violino guardado no qual dormem as vozes de Deus. Abrimos um deles, lemos uma linha, um verso. No momento, porém, não soa claro. Desiludidos, quase brutais, repomos o livro na estante. Nova busca, até que encontramos o exato, aquele próprio para o momento. De repente somos abraçados, sentimos uma respiração estranha, como se ao lado, prostrado pelo calor, estivesse o corpo de uma mulher. E como o levamos para debaixo de uma lâmpada, o livro, o feliz escolhido, brilha por igual com luz interior. A magia se produz, da nuvem delicada dos sonhos ascende a fantasmagoria. As estradas se alargam e a distância acolhe os teus sentimentos apagados.

Em qualquer lugar bate um relógio. Este, porém, não urge nesse tempo que foge. As horas aqui passam de outro modo. Ali há livros que andaram muitos séculos antes que suas palavras chegassem aos nossos lábios. Ali estão outros, jovens, nascidos ontem, gerados na confusão e necessidade de moços imberbes: falam, porém, uma língua mágica. E uns e outros agitam e aceleram a nossa respiração. Se nos irritam, também nos consolam; se nos enganam, acalmam ao mesmo tempo nossos sentidos abertos. E à medida que mergulhamos neles encontramos em sua melodia, calma e contemplação, abandonado enlevo, um mundo do outro lado do mundo.

Como agradecer a vós, livros, os mais fiéis e silenciosos dos companheiros, os momentos puros passados longe do tumulto dos dias? Como agradecer a constante solicitude, eterna elevação e a infinita calma da vossa presença? O que vos acontece nos dias sombrios de solidão, nos hospitais e campos de batalha, nas prisões e nos leitos de dor! Sentinelas constantes em toda parte oferecestes sonhos aos homens e mãos cheias de calma na inquietação e no martírio! Podeis sempre, doces ímãs divinos, atrair as almas diariamente soterradas. Trazes em vós mesmos um céu íntimo que estendeis sobre nós, sempre nos momentos mais sombrios.

Pequenos átomos do incomensurável, ficais ocultos em nossas casas, enfileirados em uma singela parede. Todavia, a mão os liberta e se o coração vos toca, então saltais invisivelmente do lugar de todos os dias e vossas palavras nos elevam como num carro de fogo, de estreiteza para a eternidade.

Os efeitos e cadeia de uma entrada de sola

Cartão Vermelho é o primeiro livro de Dimmi Amora. Saiu em 2006, pela editora 7Letras.

Conheci Dimmi de uma maneira que ninguém acredita que possa acontecer em Brasília: a convivência entre vizinhos. Eu e ele temos as mesmas obrigações de pais brasilienses, que devem ocupar suas crianças, brincando entre os pilotis das superquadras do Plano Piloto.

Como eu, Dimmi também é jornalista. Ambos sonhamos um dia ser atacantes do Flamengo. Mas o tempo passou e acabamos nos contentando em fazer as vezes de técnicos/juízes de futebol dos filhos, durante os finais de semana, feriados, pontos facultativos, férias, à noite, depois do trabalho e quanto mais o dever chamar.

Só que Dimmi foi além: transformou seu sonho em uma história de futebol. Mas não o futebol da televisão com propaganda e emoções programadas. “Cartão Vermelho” começa onde o futebol brasileiro também inicia – no lado oposto do espetáculo, rolando solto em campinhos de terra batida, esburacados, sem as redes atrás das traves e muitas vezes sem as próprias traves.

Lugares que acabam sendo as escolas de diversos jogadores, técnicos, que depois se tornam cartolas, que vão aparecer na TV, chamando cinicamente todo aquele inferno de paraíso.

No livro, as jogadas são descritas com a precisão de quem conhece e ainda parece sonhar em fazer parte daquilo. As jogadas correm pelas páginas como se fossem no campo. (Li diversos trechos para meu filho antes de ele dormir.)

Mas o livro não fica só nisso. Trata da vida de quem até hoje fez o futebol fora da TV, escondido nas favelas, várzeas e subúrbios. (Mas que nos últimos anos parece que vem deixando de fazer…) De gente que bate bola no domingo, cercada pela violência, vigiada pela bandidagem armada, de farda ou chinela, traficantes, milícia, cadáveres deixados nos becos.

Em alguns trechos, o livro mergulha em crua violência. Cenas de pancadaria, tiros, tortura, sangue escorrendo pelas ladeiras, que me voltaram à noite durante o sono. (Depois disso, passei a ler o livro só de dia.)

Dimmi veio do Rio de Janeiro, onde a cobertura da violência é a professora de todo repórter. Ganhou o Prêmio Esso em 2004, denunciando a corrupção no estado. E com certeza presenciando muita, muita violência.

Questionei se a realidade que testemunhara no dia a dia da reportagem tinha alguma influência na obra. Dimmi me confidenciou que sim. De fato, as cenas de sangue escorrem pelo livro como se fossem uma catarse do autor. Uma maneira de expurgar do pensamento imagens de alguma pauta hard, apurada nalguma comunidade perdida da zona norte carioca.

Mas a obra também não fica só nisso. Viaja pro futuro, descrevendo um país onde os sonhos perdem a razão, onde tudo se resolve ou distopicamente fica por resolver. A alternância de vozes no decorrer da narrativa também chama a atenção. São pontos de vista independentes que contribuem para um final, onde pouca coisa sobrevive. Como condena Valtencir: “Nada vai sobrar de você aqui, filho da puta”.

É o final de uma realidade caótica sucedida por um futuro previsível, trágico e inexplicável. Dimmi lia Edward Lorenz quando escreveu o livro.  Para quem não sabe (como eu desconhecia), Lorenz foi um matemático que formulou nos anos 60 uma teoria do caos, batizada de “efeito borboleta”. Desde então, o pensamento desse norte-americano vem fecundado diversos autores, na ciência, na música, no cinema e, como no livro do Dimmi, na literatura.

O que Lorenz não sabia é que, aqui, a teoria do caos já tinha sido popularizada pelo futebol antes de inventarem a bomba atômica. Desde criança a gente aprende, jogando bola, que uma simples canelada pode modificar o futuro, a vida, as cidades e até mesmo de uma simples narrativa – que começa numa simples tarde de pelada na favela e acaba no caos, no nada vezes nada, logo ali na frente.

foto: Luiz da Motta

obrigações paternas num domingo de inverno candango

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 3.647 outros seguidores